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Mulheres em casa, homens na rua?

Italo Calvino em seu livro “Seis propostas para o próximo milênio” refere-se à leveza citando Kundera: “O peso da vida, para Kundera, está em toda forma de opressão; a intrincada rede de constrições e privadas acaba por aprisionar cada existência em suas malhas cada vez mais cerradas”.

 

 Os papéis sociais masculino e feminino existem em todas as culturas e definem normas de comportamento. Quando essas normas são rígidas e resistentes às mudanças, elas aprisionam os indivíduos, levando-os a responderem de acordo com o preestabelecido. 

Na nossa cultura ocidental estão acontecendo mudanças que tiveram origem nos movimentos feministas dentro de um processo de conscientização que leva homens e mulheres a novas formas de se relacionar. 

 

As noções esteriotipadas de masculinidade e feminilidade constringem e inibem o desenvolvimento de potencialidades movido por motivações internas e a possibilidade de ser criativo. A criança aprende desde cedo a negar as características que não sente como valorizadas ao seu gênero. Se for menino, a sensibilidade, a emotividade etc. devem ser abandonadas, assim como a menina, freqüentemente, vivencia com culpa a busca da competência profissional, característica essa, muitas vezes em nível inconsciente, considerada masculina.

 

 Essa dicotomia aparece também com relação ao espaço “casa e rua”. O espaço público, que é reservado aos homens através do trabalho fora de casa, representa a liberdade. O espaço privado é reservado às mulheres. É o espaço secreto onde, muitas vezes, não há escolha para suas atribuições, que são cuidar da casa, dos filhos e preservar um ambiente protegido para o marido provedor que chega do espaço público e encontra no espaço privado a previsibilidade de uma rotina estabelecida. 

Essa rotina nem sempre é pacífica. A violência à mulher acontece em grau bastante acentuado, tanto a física como a psicológica. Essa última são as desvalorizações, as humilhações e são mais difíceis de serem detectadas porque não deixam marcas físicas. Esse circuito de interações disfuncionais tende a se repetir, tendo como lema: “roupa suja se lava em casa”. O segredo faz com que permaneçam a submissão das mulheres e as humilhações a que são submetidas e continue a prepotência e o autoritarismo masculinos. 

Cada um vivendo seu papel esteriotipado determinado por uma cultura machista.

Essas dissociações e dicotomia espacial trazem muito sofrimento a ambos os gêneros, masculino e feminino, em muitos aspectos. Às mulheres, além do já exposto, é vedada a realização pessoal fora da área privada, ou seja, na esfera pública. Aos homens é vedada uma relação mais íntima com os filhos. O homem, tendo que cumprir um “mandato cultural” no desempenho de suas atribuições como “o provedor”, “o representante da lei”, “o que coloca limites”, reprime o seu lado terno, afetivo, não se permitindo desempenhar o seu papel de cuidador. Essa é a grande perda que os homens vêm tendo ao longo dos tempos: a falta de vínculos mais fortes e sadios com os filhos desde o início de suas vidas e uma relação mais íntima com os mesmos.

Nesse processo, as mudanças estão acontecendo gradativamente. As mulheres estão mais presentes na política, nas empresas, nos sindicatos, e os homens estão se permitindo entrar em contato com suas emoções, percebendo, assim, enriquecida a sua masculinidade. 

Possivelmente, teremos uma sociedade mais justa e harmoniosa à medida que as relações na família forem se flexibilizando, de maneira a assumir novas formas. Uma delas refere-se às funções parentais: num lar onde ambos os progenitores são cuidadores, manifestam afeto, colocam limites, exercem uma autoridade compartilhada e cooperativa, sem as restrições das noções esteriotipadas de gênero, as crianças vão crescer com um leque de possibilidades para desenvolver seu potencial, levando em conta seus interesses e habilidades, e uma visão de mundo onde as relações humanas não se estabelecem através de dominadores e dominados, mas sim do compartilhar e da ajuda mútua. Esse aprendizado ela vai estender para além da vida familiar, repudiando toda a forma de autoritarismo e atitudes que oprimam e cerceiam a busca de autonomia com liberdade de escolhas.

Esperamos que nossa sociedade se desenvolva de modo a que não se precise mais festejar o “Dia da Mulher”. Que o dia da mulher, como do homem, sejam todos os dias. Que homens e mulheres, cada um sendo inteiro no espaço que ocupam, possam interagir com dignidade, que a solidariedade seja a palavra de ordem e a racionalidade e a emoção estejam integradas em cada ser humano.

Citando novamente Calvino: “As imagens de leveza que busco não devem, em contato com a realidade presente e futura, dissolver-se como sonhos...” 

Nair Teresinha Gonçalves – Psicoterapeuta: Individual, casal e família.

Coordenadora do Ambulatório do Instituto da Família 

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