Queridos afilhados,
Toda esta nossa história só aconteceu, em 1º lugar, pela oportunidade mais uma vez dada pela confiança em mim depositada pelo Renato Caminha. Quero aqui publicamente reafirmar a minha eterna gratidão por ter-me aberto as portas para a docência no universo da TCC em nosso Estado, no Brasil e, porque não, na América Latina, através do Congresso Latino Americano da ALAPCO.
Bem, era março de 2007 e começávamos a disciplina de “TCC e Neurociências”, disciplina que, lembro bem, todos amaram de paixão e lembram bem cada meandro do SNC, cada conexão entre o tálamo e o sistema límbico, assim como o córtex frontal dorsolateral e as áreas subcorticais. OK, OK! Vou parar por aqui, pois temo provocar orgasmos múltiplos nos formandos. Como eu dizia, então, era março, primeira aula de “TCC e Neurociências” – quando cheguei ao slide 40 (de 50) – sempre fui de fazer poucos slides – o qual falava do Conexionismo, ou Abordagem do Processamento de Distribuição Paralela, saí do meu transe, quando a Maria Marta exclamou: “Pelo amor de Deus, eu não estou entendendo nada disto, Caetano!”. Olhei para o restante da turma e os semblantes eram de um apavoramento. Deparei-me com aqueles olhos enormes da Cristina Copetti (olhos de quem está avistando o cogumelo atômico de Hiroshima ou o choque dos aviões nas Torres Gêmeas no 11 de setembro). Ali, antevi que este seria um relacionamento difícil e que eu, certamente, seria odiado dali em diante, pois eles mal sabiam que a coisa só iria piorar dali para frente, pios a matéria iria ficar mais e mais complexa e enfadonha.
Saí dali frustrado! Confesso!
Naquele momento parei para pensar: tinha que tomar uma decisão. Ou seguia o que tinha planejado, sendo fiel ao que eu achava que era importante e correto, mas corria o risco de ser odiado. Ou simplificaria, mastigaria bem o conteúdo, e seria “aceito” pelo grupo, facilitando a minha vida. Afinal, ali também estaria, durante o tempo inteiro, o Prado, um verdadeiro ícone da Psiquiatria rio-grandense e uma metralhadora de perguntas complexas, detalhistas e infindáveis.
Isto, então, me remeteu a um velho problema que já me custara um casamento anterior e rendia algumas “DR’s” no casamento atual: o problema de estudar todos os dias e estudar demais, ser extremamente dedicado ao trabalho e querer dar sempre a aula mais completa possível, aula que não pecasse em conteúdo desatualizado e que não deixasse qualquer dúvida. Historicamente, isto sempre envolveu ficar até altas horas da madrugada preparando as aulas, principalmente quando a disciplina era nova – para mim, nenhuma aula se repete, nenhuma disciplina é a mesma de um ano para o outro.
Eu era acusado, em casa, de ser obsessivo e “Caxias” demais. Eu sempre me neguei a faltar, a deixar um trabalho na minha ausência e relutei em passar minhas aulas para outro colega, pois achava isto uma traição com meus alunos, e, é claro, pensava que nenhum colega daria a aula como eu, ou como eu achava que deveria ser dada (as referências bibliográficas deste parágrafo os remeterão, obviamente, ao capítulo do livro de Transtornos de Personalidade do Beck, capítulo sobre TPOC, página das Crenças Irracionais deste Transtorno).
Pesava ali, também, e ninguém aqui sabe desta história, somente a Ângela, um fato muito marcante na minha vida profissional. Na primeira instituição em que fui professor, logo depois da residência, e início do mestrado, eu, muito idealista em termos de docência, decidido a implementar uma cultura altamente científica e inovadora na instituição, rebelei-me contra os vícios da instituição e impus um ritmo aos alunos que os levou, no final da residência deles, a escolherem-me como professor homenageado. Fiquei muito orgulhoso e gratificado. Contudo, aquilo significou meu sumário afastamento do corpo docente – sem qualquer aviso prévio. Simplesmente, no ano seguinte, eu não tinha mais nenhuma disciplina (mesmo sendo um dos poucos a ter mestrado), não era mais supervisor e nem era mais preceptor em um serviço que eu mesmo tinha criado e dado vida na Santa Casa de Misericórdia de POA.
Apesar de tudo isto, decidi seguir minhas convicções e continuar com o planejamento já feito para esta nova turma que se iniciava.
O primeiro semestre de 2007 foi, obviamente, de muita gemedeira e queixume. No entanto, algo começou a me chamar a atenção na turma: por mais que se queixassem da matéria chata, vocês se demonstravam interessados e pediam que eu repetisse tudo de novo, porque não tinham entendido nada. Era a primeira vez que aquilo acontecia. Saibam vocês que, invariavelmente, as pessoas em outros cursos ficavam mudas e nunca tinham dúvida sobre, por exemplo, a amídala, a tal ponto de responderem, numa prova, que o papel da amídala era somente dar amidalite nos ansiosos.
Este comportamento de pedir para eu falar tudo de novo, ao invés de me desestimular, empolgou-me sobremaneira. Era o primeiro sinal de que minha decisão tinha sido acertada. Eu, então, não medi esforços para explicar tudo de novo, fazer esquemas, gráficos e tabelas. E cada vez que eu me detalhava, obsessivamente falando, mais receptividade eu recebia de vocês.
As semanas iam passando e comecei a perceber que torcia para que a sexta-feira chegasse para que me encontrasse com vocês. Aquilo jamais acontecera antes. Percebi que começava a “rolar um clima” entre nós. Percebi que eu me permitia brincar em sala de aula e mostrar-me como nunca tinha feito. Era um clima muito bom. Percebi um carinho especial e cuidado respeitoso toda vez que vocês me percebiam todo suado e morrendo de calor. A Olinda logo falava: “Gente, liga o ar, o homem ta morrendo de calor”! Mesmo o mulherio sabendo que iria congelar, imediatamente enviavam meu escudeiro e aliado de testosterona, o Jorge, para detonar o ar condicionado.
Mesmo com este clima, porém, no final do semestre, vocês tiveram um surto psicótico por causa da avaliação. A coisa foi a um ponto da Izabel “peitar” a Ângela, queixando-se de mim.
Porém, iniciou-se o 2º semestre de 2007 e, com ele, a supervisão. O meu grupo, composto pela Vanessa, Carla, Izabel, Valquíria, Ingrid e Jorge, não sabia nada, tinha um português péssimo (cheio de erros de sintaxe e concordância) e não estava acostumado a estudar da “minha forma”. Decidido, e já bastante reforçado e recompensado pelo grupo, segui com meu jeito duro e obsessivo. Optei pela sinceridade absoluta e comecei a dizer-lhes tudo o que pensava, tal como: “Jorge, não viaja. Jorge, eu não entendi nada do que falaste e não sei onde queres chegar com esse negócio de legitimar a experiência regressiva da pessoa”. “Carla, tu és muito preconceituosa”! “Izabel, mas tu és muito teimosa. Eu vou dar com esta agenda na tua cabeça. Tu queres que eu enfarte”! “Está incompleta esta história, fulana”! “Vocês têm que estudar mais”! E assim por diante. E qual era a resposta do grupo? Todos riam, não se abatiam e foram melhorando semana após semana.
Simultaneamente, começaram, também, os rounds e a sala de espelho, esta com todos os bipolares possíveis. Bom, acho que foi aí que “ficamos” pela 1ª vez e começamos a nos apaixonar, pois as manifestações elogiosas de vocês chegavam, muitas vezes, a me deixar constrangido. A Maria marta e a Cristina sempre queriam que eu medicasse os bipolares que apareciam na sala de espelho. As nossas trocas, então, se intensificaram, tanto dentro do INFAPA, quanto fora, pois vocês, em grande número, passaram a me confiar seus pacientes e pessoas muito significativas de suas vidas. Não preciso dizer que, com isso, a nossa relação virou amor e admiração mútua. Comecei a me estimular cada vez mais, buscando artigos novos na PUCRS e enviando por email. Elaborei mais tabelas e gráficos. Estimulei-me a criar o AFETIVOGRAMA e enviei para vocês darem sugestões. E vocês, carinhosamente, acolheram e ficam, até hoje, me dando sugestões preciosas.
E, agora, veio o pedido de casamento: o convite para ser o paraninfo de vocês! Um pedido irrecusável depois de todo este envolvimento!
Quero que vocês saibam o que isto significou para mim: vocês me disseram que vale a pena estudar bastante, que vale a pena estar atualizado e que, doar-se para seus alunos, continua a ser gratificante.
Vocês me disseram que ser correto, ser pontual e cumprir com combinados é algo que continua sendo bom e valorizado. Vocês valorizaram a correção e demonstraram pra mim que ser correto não é ser careta ou chato.
Vocês me disseram que ser firme combina com ser afetivo; mostraram que cuidar, zelar, combina com sorrir.
Hoje, pessoal, a festa é de vocês, mas sou eu quem se sente reconhecido e vitorioso por ter feito uma escolha arriscada, mas autêntica.
Por tudo isso, vocês representam muito para mim. Vocês me deram um novo gás para seguir em frente com meus princípios e minhas convicções. Não me acho melhor que ninguém, nem especial, mas, confesso, pensar do jeito que penso sempre me fez sentir um ET dentro da nossa cultura do “jeitinho” e do tudo pode. Muito obrigado por terem me dito: “Segue assim, Caetano, pois teu jeito nos estimula a estudar e fazer as coisas corretamente e nos esforçarmos para sempre querer mais!”
Depois de tudo isto, então, eu quero partir para uma nova etapa em nosso relacionamento: vamos continuar juntos e procriar? Sério, isto não pode acabar aqui meus estimadíssimos afilhados. Temos de algum jeito que continuar juntos e não perder este vínculo que se criou. Vamos para uma nova etapa? Um vínculo destes não pode ser perdido.
Quero que vocês saibam que sempre vou estar na retaguarda de vocês. Estarei sempre pronto a ajudá-los com seus pacientes, a orientá-los para o que for preciso e a amá-los de paixão pelo que representam a partir na minha vida pessoal e profissional.
Desejo-lhes todo o sucesso do mundo na vida de vocês!
Um beijo no coração de todos vocês e parabenizo a todos os familiares de vocês aqui presentes por terem pessoas tão maravilhosas como vocês ao seu lado.
Um grande beijo,
Caetano.